quinta-feira, 20 de junho de 2013

INOVAÇÃO DA HORTA

Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, jornalista da Epagri, publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.3, nov.2011



A lavoura em nada lembra uma horta tradicional. Dentro de uma estrutura coberta por plástico e protegida por telas nas laterais, tomates saudáveis e graúdos crescem livres de qualquer insumo químico. Eles são produzidos no abrigo de cultivo desenvolvido pela Epagri/Estação Experimental de Itajaí (EEI), que viabilizou a produção de tomate orgânico em solo barriga-verde – proeza impensável até a década de 90, antes do surgimento dessa tecnologia.  “O abrigo funciona como um guarda-chuva”, explica o engenheiro agrônomo José Ângelo Rebelo. A cobertura evita as chuvas em excesso sobre a planta, dificultando o surgimento de doenças, enquanto a tela barra a entrada de insetos. “Algumas pragas, como a broca--pequena-do-tomate, dificilmente são controladas por produtos alternativos usados na agricultura orgânica”, justifica o engenheiro-agrônomo Euclides Schallenberger. Simples e barata, a solução exigiu anos de estudo e hoje abarca uma série de tecnologias desenvolvidas pelos pesquisadores. Um exemplo é o tutoramento dos tomateiros, que deve ser vertical – e não cruzado, como era feito tradicionalmente – para ventilar melhor as plantas. Pelo mesmo motivo, as linhas de plantio devem ser feitas no sentido norte-sul. Sob os beirados do abrigo, calhas coletam a água da chuva e a conduzem até reservatórios que abastecem um sistema de irrigação por gotejamento. “Ele fornece água de acordo com a demanda da planta”, explica Rebelo. Além de ser mais econômico, o gotejamento evita o surgimento de doenças porque direciona a água apenas para as raízes. Hoje, produtores catarinenses de tomate orgânico usam esse modelo de abrigo e muitos aproveitam as vantagens do sistema para produzir outras hortaliças. “Não há impedimento para o cultivo de nenhuma hortaliça em abrigo. A única recomendação é evitar o plantio em épocas em que a temperatura dentro dele prejudica o desenvolvimento da cultura”, orienta Schallenberger. Na produção de pepino, esse sistema oferece uma vantagem a mais. Os pesquisadores descobriram que, nos abrigos revestidos por tela, a semeadura dos pepineiros pode ser feita diretamente no solo, sem a necessidade de produzir as mudas em bandejas. Nas plantações do Estado, a técnica reduz custos, adianta a colheita em cerca de cinco dias e eleva a produtividade em 20%.




Futuro sustentável
     Essas e outras tecnologias para a produção orgânica vêm sendo estudadas desde 1990 pelo Programa de Pesquisa em Hortaliças da Estação Experimental de Itajaí. O desafio é buscar alternativas que garantam a produção competitiva, sustentável e de qualidade. Há cerca de 60 espécies de hortaliças importantes no consumo humano e isso explica a complexidade dos estudos sobre os quais os cientistas se debruçam. A importância econômica das culturas é outro ponto forte: Santa Catarina é um dos principais produtores brasileiros de alho, cebola, batata, tomate, repolho, pepino para picles, beterraba e batata-salsa, com lavouras distribuídas em todas as regiões. Por meio de cursos, dias de campo, visitas e da ação dos extensionistas, pequenos e grandes produtores têm acesso a um pacote de tecnologias que não beneficiam apenas quem trabalha com a produção orgânica. “Disponibilizamos um sistema completo para qualquer agricultor, inclusive do modelo convencional, adotar as técnicas que quiser. O uso adequado dos agrotóxicos já é uma arma importante na defesa das plantas e na redução dos impactos ambientais”, diz Rebelo.

Mudança de vida
     Essas técnicas provocaram grandes transformações na propriedade da família Tribess, de Blumenau. Por muitos anos, o casal Maria Cristina e Werner produziu hortaliças no sistema convencional. “A situação foi ficando difícil. Era muita mão de obra, a chuva prejudicava as hortaliças e às vezes não tínhamos o que colher”, lembra Maria Cristina. Em busca de uma solução, o casal e os filhos Ademir, hoje com 33 anos, e Alfredo, de 19, fizeram cursos para conhecer as tecnologias da Epagri. Ainda desconfiados, mas bastante motivados pelo filho mais velho, os agricultores testaram o que aprenderam em uma área pequena. “Em 1996 construímos um abrigo de 7 x 3m para tomates que, na primeira safra, deu mais dinheiro do que 250 pés plantados fora dele. Depois disso, nunca mais plantamos em campo aberto”, conta Werner. Os resultados de cada colheita pagavam a ampliação do abrigo para a safra seguinte e a produção foi crescendo. “Mudamos toda a nossa forma de pensar e trabalhar”, revela a agricultora. Hoje a família cultiva tomate, pepino, feijão, alface, pimentão, berinjela e cebolinha. São colhidas cerca de 3 toneladas de tomate por mês e 2 toneladas mensais de pepino no verão. A produção é vendida para uma rede de supermercados que, em parceria com a Epagri, está organizando os olericultores que trabalham com cultivo protegido no município. As mudanças na vida dos Tribess são marcantes. A renda cresceu e é suficiente para sustentar uma família com cinco adultos. A velha casa de madeira foi substituída por uma nova, de alvenaria. O volume de produção praticamente dobrou, enquanto o serviço ficou mais leve. “Antes a gente produzia menos e faltava mão de obra. Agora não trabalhamos mais na chuva e o esforço é menor”, compara Werner. Na lavoura, o uso de insumos químicos já caiu 90%. Animada com os resultados, a família quer evoluir ainda mais e está em transição para a produção orgânica. “Não quero mandar para os outros os alimentos que não como, por isso reduzimos o uso de agrotóxicos”, revela Maria Cristina.

Nutrição na medida
     Os pesquisadores Rebelo e Schallenberger contam que o segredo da agricultura sustentável é dar à planta as condições que ela precisa para revelar seu potencial de produção e de defesa contra pragas e doenças. Esse processo passa por uma nutrição equilibrada e, por esse motivo, desde 1995 os agrônomos estudam a compostagem de materiais orgânicos buscando atender as necessidades de cada hortaliça. Analisando combinações de materiais, como capim-elefante, palha de arroz, crotalária, feijão-de--porco e estercos, eles trabalham para obter compostos com teores diferenciados de nutrientes. Esse processo é feito em um modelo de composteira que foi desenvolvido na EEI: trata-se de um abrigo com piso impermeável para evitar perda de nutrientes e contaminações ambientais. “A compostagem reduz os custos de produção, utiliza o que existe na propriedade e dá um fim adequado para resíduos com potencial poluente”, destaca Schallenberger. Praticamente todos os agricultores da região de Itajaí que produzem hortaliças de forma ecológica conhecem essas vantagens e fazem o próprio adubo. Além dos compostos, os pesquisadores estudam as melhores formas de aplicá-los. “Nossa hipótese é que podemos substituir qualquer adubação mineral pela orgânica; só precisamos saber quando e como aplicar”, explica Schallenberger. Após uma série de testes, eles descobriram que o composto orgânico pode ser aplicado todo de uma vez no plantio de tomate, pepino e repolho, substituindo o fertilizante mineral. “Essa técnica reduz a mão de obra do produtor, já que a adubação mineral geralmente é parcelada em três, quatro ou até cinco vezes”, diz o pesquisador. Agora, eles estudam a adubação de cenoura e alface.

Terra saudável
     O solo onde as hortaliças vão se desenvolver também precisa de atenção. Para reciclar os nutrientes, uma recomendação é semear espécies como aveia, ervilhaca, feijão-de-porco e crotalária. Mas para determinar o melhor manejo para cada hortaliça, os pesquisadores estão testando a eficiência de técnicas como plantio direto, cultivo mínimo e cobertura de palha. “Esses sistemas reduzem significativamente os custos com mão de obra para capina e mecanização do solo”, destaca Schallenberger. E se o objetivo é eliminar doenças do solo e controlar plantas espontâneas, a Epagri ensina os agricultores a fazer a solarização, um método ecológico e barato que foi adaptado pela EEI em 1995. Depois de revolver e molhar uma camada de terra, o agricultor cobre a área com um plástico. O calor do sol e a umidade eliminam nematoides, fungos e bactérias que causam murchas nas plantas, mas preservam os microrganismos que fazem bem para a lavoura. Outra opção para driblar os problemas do solo é usar porta-enxertos mais resistentes aos agentes dessas doenças. Para dar essa alternativa aos produtores, o pesquisador Rafael Cantú avalia porta-enxertos de tomateiro resistentes a nematoides, fungos e bactérias que provocam murchas.

Tesouro genético
     Nem mesmo as melhores técnicas de produção podem salvar a lavoura se as plantas não tiverem boa qualidade genética. Por isso, a motivação da seleção de cultivares de hortaliças para a produção orgânica é obter plantas mais produtivas, resistentes a doenças e com as qualidades que o mercado procura. No Banco Ativo de Germoplasma da EEI, uma espécie de tesouro genético que serve como fonte para essas pesquisas, são preservadas mais de 200 variedades de sementes “crioulas” de hortaliças como tomate, alface, pimentão, feijão, pepino, aipim e batata-doce com potencial para se transformar em renda nas lavouras do futuro. Outra preocupação é obter cultivares que permitam ao agricultor produzir as próprias sementes, o que nem sempre é possível com as variedades híbridas do mercado. “Além disso, nas indústrias de sementes as plantas são cruzadas entre si para serem uniformes e, por isso, não têm muitos genes de defesa”, acrescenta Rebelo. Depois das avaliações agronômicas, as variedades são testadas em pesquisas participativas pelos maiores interessados no assunto. Os agricultores acompanham todo o ciclo da cultura e, após a colheita, avaliam as características que julgam importantes para cada hortaliça, como tamanho, formato, facilidade de descascamento, tempo de cozimento e sabor em diferentes formas de preparo. O trabalho de seleção mais adiantado é o da alface. Cinco variedades estão em avaliação pelos produtores e, em breve, será lançada a primeira: a Litorânea. “Falta apenas fazer o último teste, mas os agricultores precisam estar organizados em associações para receber as sementes”, explica Rebelo. Em três anos, a EEI planeja lançar novos cultivares de batata-doce, em parceria com a Estação Experimental de Ituporanga, e tomateiros resistentes a doenças que permitirão ao agricultor retirar as próprias sementes, economizando cerca de R$ 10 mil por hectare em cada safra. Outra boa promessa são as variedades de aipim que devem chegar às propriedades em dois anos para incrementar a renda de mais de 3 mil famílias catarinenses que sobrevivem dessa cultura. Também de olho no mercado, os pesquisadores iniciaram a seleção de cultivares de pimenteira. “Estamos avaliando sabores, cores, formas e teores de capsaicina, a substância que confere o gosto picante à pimenta”, adianta Schallenberger.

Mudas e oportunidades
Seja qual for a hortaliça, a qualidade das mudas é determinante para que a planta expresse seu potencial produtivo. No sistema desenvolvido na EEI, elas são feitas em canteiros móveis sob abrigos, com substratos adequados para cada espécie. “Há mais de dez anos nós produzimos mudas sem aplicar nenhum agroquímico, apenas com o manejo adequado do ambiente, da irrigação e da nutrição das plantas”, conta Rebelo. Com o treinamento oferecido pela Epagri, vários olericultores se especializaram nessa tarefa e, hoje, 100% das mudas de hortaliças são produzidos dessa forma em Santa Catarina. Um desses produtores é Heinz Passold. Da propriedade de 40 mil metros quadrados em Blumenau saem de 2 mil a 10 mil bandejas de mudas por mês, dependendo da época do ano. São hortaliças como repolho, couve-flor, beterraba, brócolis, nabo, couve-chinesa, alface, tomate, pimenta, berinjela, rúcula, chicória, almeirão, além de algumas flores, totalizando 140 espécies que abastecem 50 agropecuárias, floriculturas e produtores no Vale do Itajaí e no norte do Estado. Mas quem visita o empreendimento não imagina que há cerca de 15 anos Heinz não tinha dinheiro nem para comprar sementes. Demitido de uma indústria metalúrgica, ele procurou alternativas para sustentar a família, fez cursos da Epagri com a esposa Norma e, em um terreno de apenas 800m2, o filho de agricultores voltou às origens e começou a produzir frutas e hortaliças. Os primeiros anos foram difíceis. “Um dia, sem dinheiro, ofereci duas bandejas de mudas de alface para a dona de uma agropecuária em troca de sementes”, lembra. Troca feita, a comerciante pediu mais mudas, mas Heinz não tinha dinheiro para comprar material. “Eu tinha apenas vontade de trabalhar, então ela me deu algumas bandejas e sementes e comecei a fornecer mudas para a loja”, conta. De muda em muda, os resultados se multiplicaram. Hoje o negócio emprega toda a família – Heinz, a esposa, o filho e a nora –, além de 16 funcionários, sem contar a geração de empregos indiretos. Para chegar aonde estão, além de dedicação e força de vontade, Heinz e Norma contaram com a Epagri para aprender a produzir plantas saudáveis e de qualidade. Embora as mudas não sejam orgânicas, eles aplicam técnicas como cultivo protegido e produção de composto. “Antes eu não sabia o que era uma fórmula de adubo, os nutrientes que uma planta precisa, o que era uma doença, por que ela aparece, nem conhecia as pragas”, lembra Heinz. Aos 50 anos, o produtor planeja a sucessão do negócio. Em nove anos, quer se aposentar e passar as rédeas da propriedade para o filho e a nora. Jefferson, que tem 23 anos, está certo do que quer para seu futuro: “A gente tem que trabalhar onde se sente realizado, e eu estou feliz aqui”. 


Produtividade do pepino salta 1.000%
Grande parte das transformações pelas quais a produção de pepino de Santa Catarina passou nos últimos anos pode ser atribuída ao trabalho da Epagri. Antes dos estudos sobre o tutoramento da hortaliça, ela era cultivada de forma rasteira, o que provocava perda de frutos, reduzia a produtividade e o ciclo da planta e favorecia a entrada de doenças. Além disso, o manejo e a colheita eram difíceis e as plantas eram facilmente pisoteadas. Por volta de 1998, os pesquisadores começaram a avaliar diferentes tipos de tutoramento e concluíram que o método mais econômico e que exige menos mão de obra é o sistema vertical com fitilho. “Em ambiente mais seco e ventilado, cai o risco de doenças. Além disso, a colheita fica mais fácil e a produtividade aumenta de 30% a 40%”, detalha o pesquisador Euclides Schallenberger. Hoje, todo o pepino para picles produzido em Santa Catarina é tutorado dessa forma. A soma dessa e de outras tecnologias da EEI com as que foram lançadas pelo mercado, como cultivares mais produtivos, provocaram uma revolução nas plantações do Estado: nos últimos 15 anos, a produtividade média saltou de 8 para 80t/ha. “De todas as hortaliças, o pepino registrou a maior evolução em aumento de produtividade”, afirma o agrônomo. Santa Catarina é o principal produtor nacional de pepinos para picles, concentrando o maior parque agroindustrial brasileiro de conservas de hortaliças. A produção envolve mais de 3.500 famílias de agricultores que cultivam cerca de 1.800ha e têm na atividade uma das principais fontes de renda.


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